O Pai da internet repensa a rede
Confira abaixo entrevista com Vinton Cerf, 62 anos, um dos criadores da rede mundial e vice presidente da Google, publicada no suplemento Link de O Estado de S.Paulo.
As grandes empresas de telecom estão insistindo na chamada "internet em camadas" (tiered internet). Se eu tenho um site e pago uma taxa, elas garantem que a página carregue rápido. Quem não pagar fica mais lento.
É uma péssima idéia. A Inglaterra, a Holanda e a Nova Zelândia já se manifestaram oficialmente contra isso. Essas empresas não têm como garantir nada, pois os sites, tipicamente, não estão diretamente ligados às redes delas. Nas próximas duas semanas, o Google vai testemunhar no Congresso dos EUA sobre isso.
E o WiMAX ? Vai mudar o mundo, ou é só mais uma tecnologia de rede sem fios?
A transmissão via rádio pode ser uma solução para áreas rurais. Em lugares como o centro de São Paulo, Hong Kong, Tóquio e Seul, onde há altíssima densidade populacional, a fibra óptica funciona muito bem. O problema é que as empresas de telecomunicações têm o hábito de cobrar quantias enormes por pouca velocidade. Como neste hotel, por exemplo: eu vim para cá - no lounge - porque me disseram que o acesso era grátis (risos).
As redes sem fio públicas e gratuitas, como a que o Google está montando em São Francisco, podem acabar com os serviços comerciais?
Honestamente, só entramos nessa porque o prefeito de San Francisco pediu. Nós não queremos conectar o mundo todo, dar acesso para todo mundo. Não é esse o nosso negócio.
Nos anos 80, você liderou a criação do MCI Mail, primeiro serviço comercial de e-mail. Hoje, há uma batalha muito difícil contra o spam. O que está errado com o e-mail? E como consertar?
Para ser honesto, a solução é uma que ninguém deseja: cobrar pelo (envio de) e-mail, fazer os spammers pagarem. Eu recebo bastante spam, mas 95% são filtrados pelo Google. Só que eu não sei se mensagens importantes também são interceptadas pelo filtro (risos). Eu tenho outra idéia. Os spammers querem ganhar dinheiro. Então devíamos montar uma empresa para atraí-los, descobrir quem são e aí fazer chicoteamentos em praça pública (risos).
Recentemente, tornou-se público que o governo dos EUA estava grampeando a internet. Qual a sua opinião?
Eu entendo os dois lados. Ninguém quer terroristas explodindo prédios e matando gente. Então, é útil descobrir quem eles são. Mas eu gostaria que (o grampo) só fosse feito com autorização judicial.
Como você vê o protocolo IPv6? Por que está demorando tanto?
Eu apóio, e queria ter pensado nisso em 1977. Mas eu não previ que o TCP/IP ia se tornar a infra-estrutura do século 21. Naquela época, 4,3 bilhões de Endereços IP pareciam mais do que suficientes. Os chineses anunciaram que, na Olimpíada de 2008, toda a rede deles estará rodando o Ipv6.
Após o estouro da bolha da internet, em 2000, a rede teve alguns anos tranqüilos. Aí, ano passado, veio a Web 2.0, com muitos serviços novos. O que causou a nova onda? E até onde ela vai?
Demorou vários anos para os investidores recuperarem a confiança. Nós teremos cada vez mais informações pessoais online, sejam registros médicos, financeiros ou o seu calendário. E tudo será aberto, então os programas vão entender dados enviados por outros programas. E, nos sites de busca, se nós entendermos o significado, o contexto de um termo, poderemos mostrar apenas as respostas relevantes. É isso que as pessoas querem: "Não me mostre 24 milhões de resultados, eu só quero uns três" (risos).
A internet interplanetária vai sair do papel? E por que ela é necessária?
Nós vamos redesenhar as comunicações espaciais nos moldes da internet. A rede atual (Deep Space Network) usa antenas muito velhas. A taxa de transmissão de Marte é de uns 28 Kbps, pois os dados estão vindo direto da superfície do planeta. Alguém teve a idéia de conectar os robôs (que estão no planeta vermelho) aos satélites artificiais na órbita de Marte. Aí você transmite para o satélite, a 128 Kbps pois a distância é menor, e armazena os dados no satélite, que os encaminha depois (para a Terra). Os dados são armazenados e depois encaminhados. E a internet é uma rede que armazena e depois encaminha. A transmissão de dados por pacotes é justamente isso. A vantagem é que cada nova missão (espacial) poderá usar a estrutura de comunicação da anterior. Como na internet: se você fala com ela, fala com milhões de máquinas. Então, em 2030 ou 2050, a maioria dos planetas deverá ter satélites artificiais em órbita, e a internet interplanetária conectará todos. [via]
As grandes empresas de telecom estão insistindo na chamada "internet em camadas" (tiered internet). Se eu tenho um site e pago uma taxa, elas garantem que a página carregue rápido. Quem não pagar fica mais lento.
É uma péssima idéia. A Inglaterra, a Holanda e a Nova Zelândia já se manifestaram oficialmente contra isso. Essas empresas não têm como garantir nada, pois os sites, tipicamente, não estão diretamente ligados às redes delas. Nas próximas duas semanas, o Google vai testemunhar no Congresso dos EUA sobre isso.
E o WiMAX ? Vai mudar o mundo, ou é só mais uma tecnologia de rede sem fios?
A transmissão via rádio pode ser uma solução para áreas rurais. Em lugares como o centro de São Paulo, Hong Kong, Tóquio e Seul, onde há altíssima densidade populacional, a fibra óptica funciona muito bem. O problema é que as empresas de telecomunicações têm o hábito de cobrar quantias enormes por pouca velocidade. Como neste hotel, por exemplo: eu vim para cá - no lounge - porque me disseram que o acesso era grátis (risos).
As redes sem fio públicas e gratuitas, como a que o Google está montando em São Francisco, podem acabar com os serviços comerciais?
Honestamente, só entramos nessa porque o prefeito de San Francisco pediu. Nós não queremos conectar o mundo todo, dar acesso para todo mundo. Não é esse o nosso negócio.
Nos anos 80, você liderou a criação do MCI Mail, primeiro serviço comercial de e-mail. Hoje, há uma batalha muito difícil contra o spam. O que está errado com o e-mail? E como consertar?
Para ser honesto, a solução é uma que ninguém deseja: cobrar pelo (envio de) e-mail, fazer os spammers pagarem. Eu recebo bastante spam, mas 95% são filtrados pelo Google. Só que eu não sei se mensagens importantes também são interceptadas pelo filtro (risos). Eu tenho outra idéia. Os spammers querem ganhar dinheiro. Então devíamos montar uma empresa para atraí-los, descobrir quem são e aí fazer chicoteamentos em praça pública (risos).
Recentemente, tornou-se público que o governo dos EUA estava grampeando a internet. Qual a sua opinião?
Eu entendo os dois lados. Ninguém quer terroristas explodindo prédios e matando gente. Então, é útil descobrir quem eles são. Mas eu gostaria que (o grampo) só fosse feito com autorização judicial.
Como você vê o protocolo IPv6? Por que está demorando tanto?
Eu apóio, e queria ter pensado nisso em 1977. Mas eu não previ que o TCP/IP ia se tornar a infra-estrutura do século 21. Naquela época, 4,3 bilhões de Endereços IP pareciam mais do que suficientes. Os chineses anunciaram que, na Olimpíada de 2008, toda a rede deles estará rodando o Ipv6.
Após o estouro da bolha da internet, em 2000, a rede teve alguns anos tranqüilos. Aí, ano passado, veio a Web 2.0, com muitos serviços novos. O que causou a nova onda? E até onde ela vai?
Demorou vários anos para os investidores recuperarem a confiança. Nós teremos cada vez mais informações pessoais online, sejam registros médicos, financeiros ou o seu calendário. E tudo será aberto, então os programas vão entender dados enviados por outros programas. E, nos sites de busca, se nós entendermos o significado, o contexto de um termo, poderemos mostrar apenas as respostas relevantes. É isso que as pessoas querem: "Não me mostre 24 milhões de resultados, eu só quero uns três" (risos).
A internet interplanetária vai sair do papel? E por que ela é necessária?
Nós vamos redesenhar as comunicações espaciais nos moldes da internet. A rede atual (Deep Space Network) usa antenas muito velhas. A taxa de transmissão de Marte é de uns 28 Kbps, pois os dados estão vindo direto da superfície do planeta. Alguém teve a idéia de conectar os robôs (que estão no planeta vermelho) aos satélites artificiais na órbita de Marte. Aí você transmite para o satélite, a 128 Kbps pois a distância é menor, e armazena os dados no satélite, que os encaminha depois (para a Terra). Os dados são armazenados e depois encaminhados. E a internet é uma rede que armazena e depois encaminha. A transmissão de dados por pacotes é justamente isso. A vantagem é que cada nova missão (espacial) poderá usar a estrutura de comunicação da anterior. Como na internet: se você fala com ela, fala com milhões de máquinas. Então, em 2030 ou 2050, a maioria dos planetas deverá ter satélites artificiais em órbita, e a internet interplanetária conectará todos. [via]

4 Comentários:
muito legal a entrevista!
Por
Anônimo, Às
12 junho, 2006
Será que a médio/longo prazo eu estarei no MSN (ou Google Talk) perguntando: "De que planeta você é?"??????
Por
Unknown, Às
12 junho, 2006
Muito legal a entrevista.
ainda bem que ele acessou de gratis, imagina. "Pai da internet pagou pra ter umas horinhas de acesso" engraçado!
Por
Anônimo, Às
13 junho, 2006
Cara, muito boa a entrevista! O cara é muito inteligente e irreverente! Gostei do jeito que ele aborda os fatos, argumentando a favor ou contra. Muito inteligente e com a cabeça no lugar, pena que ta velho não vai contribuir muito mais =\
Por
felipe~!, Às
14 junho, 2006
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