O texto abaixo saiu no Estadão deste domingo (13). Trata-se de um texto imperdível porque dá uma boa idéia do pavor que tradicionais setores da economia têm da "Revolução Google". Se dependessem de alguns deles, a Google seria riscada do mapa. O texto, que originalmente foi publicado no The New York Times, também mostra que o consumidor, graças aos sistemas de buscas, terá uma arma cada vez mais poderosa: a informação em tempo real. Não é à toa que a Wart-Mart, a maior empresa de varejo do mundo, acompanha a Google com uma extrema cautela.
Steve LohrThe New York Times
NOVA YORK - A Wal-Mart, a maior rede varejista dos Estados Unidos, freqüentemente intimida suas concorrentes e seus fornecedores. Fabricantes de todo tipo de produto, de fraldas a DVDs, precisam ceder constantemente a seus caprichos. Mas existe uma companhia que até a Wal-Mart vê com cautela hoje em dia: o Google, empreendimento criado há sete anos que pertence a um setor aparentemente distante da rede varejista. "Observamos o Google com muita atenção na Wal-Mart", admitiu Jim Breyer, membro da diretoria da companhia.
No Google, a Wal-Mart enxerga um pioneiro da tecnologia e, ao mesmo tempo, a semente de uma ameaça, afirmou Breyer, que também é sócio de uma firma de capital de investimento. O temor é que o Google, ao tornar a informação disponível em toda parte, possa em breve ser capaz de dizer aos fregueses da Wal-Mart se existem pechinchas melhores nas proximidades.
A Wal-Mart não está sozinha em sua preocupação. À medida que o Google exerce cada vez mais a função de ponto de partida para a busca de informações e a compra de produtos e serviços, empresas que há apenas um ano não se consideravam concorrentes diretas do serviço de pesquisas na internet começam a vê-lo com certa angústia - misturada com uma dose de admiração.
As recentes iniciativas do Google provocaram apreensão em setores que vão da publicação de livros às telecomunicações. Entre os ramos já atingidos pelo "efeito Google" estão a publicidade, o software e a mídia noticiosa. Além do varejo, a presença incômoda do Google poderá em breve ser sentida nos setores imobiliário e de venda de automóveis.
O Google, o gigante que domina a pesquisa na internet, poderá ampliar seu alcance econômico nos próximos anos, à medida que mais pessoas usarem o acesso rápido à rede e os celulares se transformarem em ferramentas de busca completas, segundo analistas. E programas de computador cada vez mais inteligentes, dizem eles, vão separar e organizar depósitos digitais cada vez maiores de notícias, imagens, listagens de imóveis e relatórios de trânsito, fornecendo resultados mais parecidos com os conselhos de um especialista humano confiável.
Tais avanços, prevê a consultora de tecnologia Esther Dyson, motivarão "uma enorme redução da ineficiência em toda parte". Isto, por sua vez, seria uma força perturbadora para todo tipo de setor e de trabalhador. Mas também recompensaria os consumidores com preços mais baixos e criaria oportunidades para novas companhias. O Google, então, pode acabar tendo um impacto maior do que o exercido pelos campeões anteriores da internet, como o varejista virtual Amazon e o site de leilões eBay. "O Google é a concretização de tudo o que esperávamos da internet e que não havia realmente acontecido antes do Google", disse David B. Yoffie, professor da Escola de Administração de Harvard.
O Google é, certamente, somente uma das companhias na vanguarda da disseminação da tecnologia da internet. A concorrência nessa área tem se mostrado bastante acirrada, e ele pode tropeçar. Só no mercado das buscas, enfrenta rivais formidáveis como a Microsoft e o Yahoo. A Microsoft, em particular, trabalha duro para alcançar o Google nas pesquisas na internet. "Isto é concorrência feroz, não tenha dúvida", disse Bill Gates, o executivo-chefe da Microsoft. "O momento mágico virá quando nossa busca for comprovadamente melhor que a do Google", afirmou, sugerindo que isto poderá acontecer daqui a cerca de um ano.
No entanto, além de seu status de favorito, o Google também é notável pelo ritmo de inovação e pela abrangência com que parece interpretar sua missão de "organizar a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil". A atual lista de ofertas da companhia inclui: software para buscar arquivos em computadores pessoais; um serviço de e-mail; mapas; imagens de satélite; serviço de mensagens instantâneas; ferramentas para blogs; um serviço para a publicação e o compartilhamento de fotos digitais pela rede; e buscas especializadas em notícias, vídeo, compras e informações locais. O empreendimento mais controverso do Google até o momento, o Google Print, é um projeto para copiar e catalogar milhões de livros; ele enfrenta ações judiciais de algumas editoras e autores, que denunciam a violação de direitos autorais.
O Google, que tende a manter seus planos em segredo, certamente tem dinheiro para financiar empreendimentos bastante ambiciosos. Suas receitas crescem quase 100% ao ano e seus lucros aumentam ainda mais rápido.
IMÓVEIS
Os executivos da empresa só falam das perspectivas da companhia em termos gerais, mas sugerem horizontes quase sem limites. "Acreditamos que as redes de busca, como indústrias, continuam nos estágios iniciais de crescimento, com grande potencial para o futuro", disse Eric Schmidt, executivo-chefe do Google, em reunião com analistas no mês passado.
Entre os muitos projetos em desenvolvimento e discussão no Google está um serviço imobiliário, segundo uma fonte que participou de reuniões sobre a proposta. O conceito, disse a fonte, é melhorar as capacidades dos serviços de imagens de satélite, mapas e buscas locais da companhia e combiná-los com listas de imóveis.
O serviço, continuou a fonte, poderia facilitar muito a procura por imóveis, permitindo que os potenciais compradores visitassem menos agentes imobiliários e propriedades. Se tiver sucesso, o serviço será outro ímã para os anúncios de texto que aparecem ao lado dos resultados das buscas, fontes da maior parte da receita do Google. Em telecomunicações, a empresa tomou algumas iniciativas que atraíram a atenção dos executivos do setor. O Google comprou capacidade de cabos de fibra óptica nos Estados Unidos e investiu numa companhia que oferece acesso à internet em alta velocidade através da rede elétrica. E está participando de uma experiência para fornecer acesso à internet sem fio e gratuito em São Francisco, nos Estados Unidos.
Isto leva a especulações de que a companhia quer construir uma GoogleNet (rede Google) nacional e gratuita, paga principalmente pela publicidade. E os executivos do Google parecem se divertir lançando pistas torturantes, ainda que vagas. "Estamos nos concentrando no acesso à informação tanto quanto na busca em si, pois ambos são necessários", disse Schmidt em outubro. Os executivos de telecomunicações são céticos quanto à possibilidade de o Google invadir seriamente seu setor num futuro próximo. Para começar, dizem eles, será difícil e caro construir uma rede nacional.
Mesmo assim, eles monitoram cada passo do Google. "O Google é sem dúvida um potencial concorrente", disse Bill Smith, diretor de tecnologia da americana BellSouth, companhia telefônica regional baseada em Atlanta. As maiores rivais das companhias telefônicas no serviço de acesso à internet, observou Smith, são as operadoras de TV a cabo. "Mas não ignoro o Google, de modo algum", disse ele. "Seria tolice fazer isso hoje em dia."
Quanto ao varejo, o Google não tem interesse em armazenar e vender mercadorias. Seu potencial impacto é mais sutil, mas continua significativo. Toda loja tem uma coleção de produtos, alguns mais lucrativos que outros. Mas os itens menos lucrativos podem atrair as pessoas para as lojas, onde elas também compram os produtos com grandes margens de lucro - uma prateleira, na prática, subsidia a outra.
Os motores de busca, combinados com outras tecnologias, têm o potencial de levar a comparação de preços ao nível das prateleiras. Os fabricantes de celulares, por exemplo, estudam o conceito do "telefone de compras", com uma câmera que pode ler códigos de barras dos produtos. O telefone poderia conectar-se a bases de dados e serviços de busca e, com a ajuda de tecnologia de satélite, revelar que o modelo de TV de tela plana na frente do consumidor é US$ 200 mais barato numa loja perto dali.
"Vemos este enorme poder passando para o consumidor neste ambiente do Google", disse Lou Steinberg, diretor de tecnologia da Symbol Technologies, que fornece leitores de código de barras a varejistas. Tais serviços poderiam levar a preços mais baixos para o consumidor, mas também a uma competição implacável que ameaça empreendimentos existentes.
MÍDIA
Um jornal ou uma revista podem ser vistos como uma loja de mídia - uma coleção de
notícias, entretenimento e publicidade entregue num pacote. Uma ferramenta como o Google News permite que um leitor ou anunciante faça escolhas, dividindo o pacote por meio da separação dos artigos e anúncios. E os anúncios do Google, ao lado dos resultados da busca, muitas vezes são geradores de vendas mais eficazes que os anúncios impressos.
"O Google certamente representa um desafio para os jornais", afirmou Gary B. Pruitt, executivo-chefe da McClatchy Company, rede de 12 jornais que inclui The Star Tribune, em Minneapolis, e The News & Observer, em Raleigh, Carolina do Norte. "O Google está atacando a base de publicidade dos jornais."
Ao mesmo tempo, o Google e a tecnologia de busca tornam-se cruciais para a saúde dos jornais, à medida que mais leitores migram para a internet. Como um caminho para o futuro, Pruitt diz que seus jornais podem prosperar oferecendo buscas de produtos locais, mas também fazendo parcerias com motores de busca para atrair leitores.
Dentro dos setores, a influência da busca na internet é freqüentemente desigual. Os motores de busca, por exemplo, estão sendo adotados pelos fabricantes de automóveis, mas representam uma ameaça para os revendedores. George E. Murphy, vice-presidente de marketing global da Chrysler, disse que a companhia compra anúncios com 3 mil palavras-chave por dia nos grandes sites de busca: Google, Yahoo, MSN (da Microsoft) e AOL, cujas buscas são mantidas pelo Google. Se alguém digita uma dessas palavras-chave, os resultados da busca são acompanhados por um link patrocinado para um site da Chrysler.
A Chrysler refina sua abordagem baseando-se em quais palavras de busca atraem cliques e estuda o tráfego em seu site à procura de pistas para a transformação de internautas em compradores. "Temos mestres trabalhando nisso", disse Murphy. "Agrande vantagem da busca é que você pode aplicar a matemática e seguir o rastro."
Depois de seguir um link para um site da Chrysler, um possível comprador pode configurar um modelo, encontrar um revendedor e obter um preço preliminar. Apenas os revendedores podem fazer cotações finais de preço. No entanto, com mais
informações na internet, a direção das coisas é clara, na visão de Murphy. "Isso vai mudar fundamentalmente o que o revendedor faz, pois descrever o veículo para as pessoas deixará de agregar valor para o consumidor", afirmou ele. "Se os revendedores não mudarem, vão virar dinossauros."
Breyer, o diretor da Wal-Mart, observa o Google atentamente em seu trabalho como sócio-gerente da Accel Partners, firma de capital de investimento no Vale do Silício. Hoje, ele aconselha os novos empreendimentos a evitar uma "rota de colisão" com o Google, do mesmo modo que, por muito tempo, aconselhou as companhias nascentes a ficarem longe do bastião da Microsoft no software para computadores pessoais.
A busca na internet, como a computação pessoal no apogeu, é uma tecnologia perturbadora, disse ele, pois ameaça empreendimentos tradicionais e abre as portas para novos. "Acreditamos que sobram oportunidades para a inovação na economia Google", disse Breyer.